Intensivão de teatro

Postado por Thiago sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Abrem-se as cortinas e vejo um japonês, lá no fundo do palco. É o Eduardo Okamoto, ator. Estou sentado no meio da platéia, praticamente a sua frente. Ele se adianta a passos vagarosos, aproxima-se, reina o silêncio... por quê vem ao nosso encontro? Ah, algo ocorre: a cada passo seu corpo transforma-se, nega-se, modifica-se... já não está mais ali o ator, mas um desconhecido. Assim começou a peça Eldorado, uma das três que assisti no Feverestival. Ignorante como sou do mundo da representação dramática, não sabia que ele foi indicado para o prêmio Shell 2009 de melhor ator como também pesquisador acadêmico. A saga de um cego e sua rabeca é a união de uma pesquisa de campo no litoral sul de São Paulo e a colaboração do ator e diversos profissionais. A construção do personagem me marcou bastante, cada detalhe das mãos e pés, seus movimentos milimetricamente cotidianos, estava-se presenciando um típico rabequeiro e seus causos. Interrupções bruscas traziam de volta o ator que pronunciava algumas palavras, para logo em seguida retornar ao músico, como numa incorporação mediúnica. Espetáculo cativante e denso, de autoconhecimento e de conhecer o outro. Demais!!!

No dia seguinte, também no SESC, fui ver o In-Between de Yael Karavan, israelense radicada na Inglaterra. Não tenho medo de dizer que saí de lá sem entender muita coisa... era para ser sentido ou racionalizado? Teatro ou performance? Esse "entre as coisas" do título me fez pensar na incerteza pendular do contemporâneo, as ações eram rápidas e muitas vezes me senti angustiado, mas tinha um pouco de clown também, e mímica... bom, aquela rápida pesquisa na net me diz que ela faz "poesia visual" com base no butô (japonês), dança, mímica, teatro visual e muitas outras coisas... vencido nas palavras, prefiro traduzir o site da moça: "suspenso entre duas realidades, dois continentes, dois amores, o trágico e o cômico, In-Between é um poema coreográfico sobre a dualidade interior e a solidão exterior da condição humana". Numa conversa comigo mesmo, faltou conhecimento de ambos... :-) mas fui para curtir e aprender, né?

Terceira apresentação, que entrem os palhaços!!! Grande chamada para a Clownferência no Espaço Semente. Não conhecia o centro cultural, o que já valia a visita. Calor infernal, segunda sessão (a primeira esgotou rapidamente), lotação (ponto negativo, mas só assim para assistir algo de bom, né Campinas?) fui curtir diversas gags de grupos de Barão Geraldo e convidados. Alguns já tinha visto, já que (infelizmente) era frequentador assíduo da programação infantil. Deixo como destaque o palhaço violeiro, que entrou e saiu sem dizer nada mas me fez chorar de tanto rir...

foto: Família Burg

Por fim, fui pegar uma peça na Campanha de Popularização do Teatro de Campinas no Centro de Convivência, chamada Os Machões do Grupo Sotac. A visita do pai "coronel" agita a vida do casal gay, que se vira para não arranjar encrenca. Uma comédia meio pastelão que buscou nos clichês a comicidade. Ri em alguns momentos mas não foi nada demais... se é importante para a campanha atrair o público através de espetáculos leves, não deve ser seu objetivo manter-se nesse esquema. A questão do preconceito poderia ser trabalhada de forma mais enfática. Se procuraram problematizá-la pela comédia, deixaram passar diversos outros preconceitos, como os "manos", os "porteiros", os "caipiras"e por aí vai... somou zero, na minha opinião..

É isso aí, escrevi demais para quem entende de menos, apesar de ter gostado bastante...

2 opinaram

  1. Thaiza comentou:
  2. Ótimos pitacos Tico! Isso aí, não precisa ser especialista pra tecer impressões e críticas, é só tirar a bunda do sofá e fazer parte do respeitável público!

     
  3. renata comentou:
  4. discordo...adorei a apresentação dos Machões... não vi nada de pastelão como comentou..tanto é que tiveram que abrir mais uma sessão extra...
    bom dia

     

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