Cultura e Experiência – A árvore da vida

Postado por rafaelc sexta-feira, 19 de agosto de 2011



A crítica de cinema esbarra num duplo obstáculo: é preciso evitar simplesmente descrever os filmes, mas também aplicar-lhes conceitos vindos de fora. A tarefa da crítica é formar conceitos, que evidentemente não estão "dados" no filme, e que, no entanto, só convêm ao cinema, e a tal gênero de filmes, a tal ou qual filme. Conceitos próprios ao cinema, mas que só podem ser elaborados filosoficamente. Não são noções técnicas (travelling, raccords, falsos raccords, profundidade de plano, planeza, etc.), mas a técnica não é nada se não serve a fins que ela supõe e que ela não explica. (DELEUZE, 1992, 75)



Esse espaço se inicia com a perspectiva de um fazer diferente. Como nos chama atenção a citação acima, a crítica de um filme (e também de outras áreas artísticas), em geral, ora se resume a uma descrição de um filme ora à aplicação de idéias/teorias vindas de fora matando a sua potência artística – visto essa doença aguda da interpretose que nos assola. Tentação que alguns psicanalistas custam a ceder e que se prestam a tudo interpretar. O filme A árvore da vida é um prato cheio para eles principalmente em função dos conflitos familiares presentes (pai-mae-filho).



Se permitir experienciar um filme. Se arriscar a compor com ele e desviar para diferentes caminhos construindo diferentes sentidos. Talvez essa possibilidade de relação entre a cultura e a experiência possa ser bem interessante e é o que se pretende arriscar com esse espaço (Cultura e Experiencia).



O filme de Malick coloca como pano de fundo a problemática da existência, do sentido da vida de maneira um tanto ideológica. Ao fazer alusão do macro ao microcosmos utiliza-se de imagens e músicas eloqüentes desvalorizando o universo cotidiano, da micropolítica cotidiana na busca de um sentido único para a existência: Deus.



Vida e morte. Sucesso e fracasso. Natureza e graça. A figura da árvore chega a ser emblemática. Lógica binária, dialética, duas faces da mesma moeda. Mas a vida é mais, a vida é múltipla. Será que se trata de buscar um sentido único ou criar múltiplos sentidos?! Talvez à A Árvore da vida caberia melhor O rizoma da vida.





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6 opinaram

  1. Aline Nardi comentou:
  2. Rafael, meus parabéns. Adoro a ideia deste seu 'fazer diferente'. Acho que com relação à arte, algumas vezes, nos falta a contemplação, creio piamente que ela vem primeiro, antes de qualquer coisa. Talvez o preparo do público para um olhar mais aberto à recepção desta arte (literatura, cinema, música, pintura etc) se faça necessário. Por isso que sou entusiasta de ações ligadas à formação de platéias. Não sei se é bem isso que você está querendo fazer, mas me alegra este diferencial do Cult. Simplesmente noticiar é o óbvio. Emocionar, provocar, atiçar o questionamento crítico ou a reflexão é muito mais interessante e produtivo.
    Fazer uma crítica bacana é bom, mas pode não ser interessante para quem é público. Levando pra literatura, que é minha praia, a crítica me interessa enquanto escritora porque me sinto perdida sem feedback crítico, no entanto esse outro olhar, o do leitor-público, é mais pessoal e delicado, mais belo, com certeza. E a arte é recebido por cada um de uma forma tão peculiar que não deveria ser desprezada.
    O texto poderia ser maior?

     
  3. Tico comentou:
  4. Boa, tentei ver esse filme ontem mas não rolou. Agora fiquei interessado... aliás, assisti o "Melancolia" do Lars Von Trier, ninguém vai comentá-lo?

     
  5. Thaiza comentou:
  6. Vi Melancolia ontem, ainda estou digerindo! Lars von Trier cutuca né, mete o dedo na ferida onde ninguém quer ver, ele vai lá e escancara. Rá, tinha um cara na poltrona ao lado que dava gargalhadas nos momentos mais impróprios, às vezes tecia uns comentários no meio do filme. Pra sala de cinema sou conservadora, mesmo: seja discreto e respeite o momento de disfrute alheio!

     
  7. Rafael comentou:
  8. Ainda não vi... estou ansioso para assitir Melancolia... ansioso para a melancolia... hehehe. Ao que parece há várias possibilidades de atravessamentos entre os dois filmes (A árvore da vida e Melancolia). Vamo ve como vai descer o filme e o que ele me mobilizará... De repente sai algumas coisas e posto aqui!
    PS: onde ta passando Thaiza?

     
  9. Tel comentou:
  10. Vi ontem o "Árvore". Mesmo reconhecendo o límite da técnica, ela merce destaque. Achei estrondoso, tanto nas imagens pré-históricas, cósmicas e míticas, e muito mais na genial estética do rotineiro, entre sons e cortes (família). Mas ao contrário de alguns críticos (por exemplo, Roger Ebert) que se "viu" no filme e conseguiu sentir uma forte conexão com a história, só consegui apreciá-lo a distância. A barreira cultural do retrato familiar, ao contrário do mítico, é muito forte e creio, servirá muito mais para um público (Americano ou não) que se veja retratado naquela narrativa.

     
  11. Aline comentou:
  12. Cada vez que leio seus comentários me desespero por não conseguir tempo pro cinema (adulto, frise-se!). Vou tentar assistir os dois nesse fim de semana. Duas pauladas de uma vez. Adoro essas trocas de figurinhas! A gente tem que movimentar mais isso por aqui, por isso penso que o Cult realmente esteja mudando, há uma nova demanda. A formação de público é importante. Eu acho... Beijo aê!

     

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